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  • Eliseu Pinheiro - Tudo Bambu

O Bambu e sua Versatilidade - Conhecendo a Gramínea

Atualizado: Out 20


O Bambu e sua Versatilidade é um resumo das minhas pesquisas/experiências junto aos colaboradores da Fazenda dos Bambus onde trabalhei no período de Julho de 2004 a Abril de 2014, sendo quase todo esse período como Administrador da referida propriedade e também exponho de forma bastante resumida, porém prática, pesquisas que fui fazendo no Sítio Terrinha que adquiri o direito de administrar desde 2001 (Visto que não somos donos de nada), paralelas aos trabalhos na Fazenda dos Bambus, com reduzido tempo, apenas quando vinha de férias ao sítio, mas o suficiente pra se ter uma ideia bem clara das diferenças entre as duas propriedades, principalmente no que diz respeito ao cultivo, Já que as diferenças na produção de mudas podem ser facilmente recompensadas como veremos de acordo com a exposição dos temas. Essa matéria é parte de um texto que escrevi inicialmente para um curso de produção de mudas de Bambu que ministrei para o Sindicato dos Produtores Rurais de Pardinho e SENAR em 2011 e 2012, com apoio da proprietária da Fazenda dos Bambus, Sra. Betty Feffer, a quem dedico este singelo trabalho.


Introdução

Nos dias Atuais, é impossível fazer algo conscientemente sem se pensar em Sustentabilidade.


A palavra Sustentabilidade é tão nova quanto desgastada e muito frequentemente sendo utilizada de forma indevida com tanta coisa sendo chamada de Sustentável sem ao menos conter os princípios básicos da Sustentabilidade. A palavra no meu entender é tão complexa que já prefiro falar de coisas e métodos que mais se aproximem da Sustentabilidade ao invés de dizer que isso ou aquilo seja sustentável. Para mim a palavra Sustentabilidade levada ao pé da letra chega a ser um mito, impossível de ser alcançada na sua plenitude pelo ser humano com todas suas tecnologias, vontade de mudar as coisas e gosto pelas descobertas que trazem conforto, mas por outro lado completamente Insustentáveis, porém bem mais cômodo que buscar a Sustentabilidade, mesmo que futuramente venha a custar muito caro para todos nós.


A Sustentabilidade se afirma em três pontos básicos: Ecologicamente correto, Socialmente Justo e Economicamente viável, em se faltando um dos três pontos não mais teremos Sustentabilidade.


Nos meus quase dez anos Administrando a Fazenda dos Bambus e ao mesmo tempo em paralelo no sítio Terrinha, município de Araçuaí no vale do Jequitinhonha estado de Minas Gerais ao Sudeste do país, pesquisando e desenvolvendo métodos para produção de mudas, plantando, cultivando, manejando e trabalhando o material, não tenho como escutar a palavra Sustentabilidade, sem fazer uma rápida associação da palavra ao Bambu, como também não posso falar do Bambu sem pensar em sustentabilidade, ou seja, acredito ser um dos materiais que mais se aproximam da tão falada Sustentabilidade, tão falada quanto tão pouco feito verdadeiramente em seu favor.


Obs.: Araçuaí no vale do Jequitinhonha tem o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) bem próximo ao mais baixo do País, enquanto Pardinho SP está bem próximo do Maior IDH do país, então tive a oportunidade de um dia estar trabalhando no local com um dos maiores IDHs e no dia seguinte já trabalhando no local com um dos menores IDHs do país.



Bambu & Sustentabilidade

Que o Bambu já é visto como o material que mais se aproxima da Sustentabilidade não é nenhuma novidade para as pessoas que o conhecem e admiram, porém esse conhecimento é ainda muito pequeno no nosso país onde não raramente o bambu é visto como praga e ainda muitas vezes indesejado, então vejamos um pouco sobre isso:



Ecologicamente Correto


O Bambu absorve até 30% mais CO2 que as árvores, o corte (manejo correto) é feito como se fosse uma poda auxiliar da planta, mantendo sempre a floresta de bambu que cobre o solo, também não há necessidade de agrotóxicos devido a praticamente não existir pragas para o bambu antes do corte, isso ao mesmo tempo ajuda a manter os animais, pássaros, insetos e principalmente as abelhas hoje tão ameaçadas, ao contrário de outros tipos de reflorestamento.



Socialmente Justo


A inclusão das pessoas ao meio de trabalho, melhores condições e perspectiva de vida com a criação de empregos em todas as áreas da cadeia produtiva. Nos países com maiores investimentos no cultivo do Bambu, estima-se que há de forma direta e indireta um aumento de cinco novos empregos para cada hectare de Bambu cultivado.



Economicamente Viável


O Bambu pode ser comercializado na sua forma natural assim que colhido ou após a agregação de valor como tratamento ou ainda na forma de kits para construção de móveis, quiosques, garagens, estacionamentos, barracões e até casas em forma de kits leves para o transporte e ainda atender ao mercado de alimentos com a venda de brotos apropriados para a culinária.


Pensando na industrialização, ele também pode ser laminado, prensado e colado na forma de pranchas, vigas e piso ou já em curvas ganhando o modelo do produto final, evitando perdas ao trabalhar o material.


Também temos espécies como o Bambusa vulgaris e Bambusa vulgaris var. vitatta, viáveis ao enorme mercado da celulose, as fibras longas do Bambu podem produzir a partir da celulose papéis de alta qualidade, já encontrados no mercado Brasileiro em grande quantidade, porém pouco divulgados e que podemos até já haver utilizado deles sem ao menos perceber.


Outro ramo também seria a produção de biomassa ou carvão, utilizando das espécies mais simples, porém com desenvolvimento mais rápido como é o caso do Bambusa vulgaris ou sobra dos outros Bambus sem tratamento químico, utilizados para outros fins e ainda todo o material considerado sobra como galhos, folhas bainhas, pó de serragem e sobras da laminação, pode ser aproveitado no sistema de industrialização para a produção de placas do tipo OSB, MDF etc.


Pensando no cultivo das plantações ainda poderíamos usar essas sobras na compostagem que produziria um ótimo composto rico em silício, mineral presente em grande quantidade no bambu e do qual nossos solos são carentes, um composto desses materiais, com certeza traria um desenvolvimento mais rápido das plantações novas e também manteriam o bom desenvolvimento e ainda traria maior resistência e flexibilidade aos Bambus das plantações adultas que também precisam de nutrientes para uma maior e melhor produção em quantidade de brotos.

Posso dizer sem medo de estar errado que o Bambu é senão a solução, ao menos uma grande ajuda para resolver os problemas Ecológicos, Sociais e Econômicos do Brasil que coincidentemente são os três pontos básicos para a sustentabilidade, e apesar de o Brasil ser um país bastante rico de bens naturais e tecnologias desenvolvidas, temos de modo geral um nível muito baixo nos três pontos, com uma diferença social enorme desde classes com recursos para “esbanjar a vontade” até classes onde se falta o básico para uma vida ao menos digna nos mínimos padrões de exigência.



Bambu X Árvore


Uma árvore de reflorestamento, dependendo da espécie pode levar sete anos ou mais para o corte e uso como madeira.

Faz-se o corte e espera outros cinco ou sete anos para um novo corte. Isso quando não se tem que fazer um novo plantio.


Os Bambus de grande porte também tem uma fase inicial que varia entre sete e dez anos para o desenvolvimento inicial da planta desde a muda plantada até sua fase adulta.

O diferencial é que a partir desse primeiro período todos os anos teremos colmos de boa qualidade para colher, nunca retirando toda a floresta de Bambu, desde que sejam manejados tanto no manejo de cultivo quanto no manejo de colheita de forma correta.


Um manejo adequado fará toda a diferença quanto à produção nos anos posteriores.


Obs.: Na nossa região, Vale do Jequitinhonha, os Bambus só seriam viáveis naturalmente nas margens dos rios, córregos e lagos onde criariam uma bela mata ciliar, nos pontos mais altos dependeriam de irrigação constante em todo tempo de falta de chuvas pra desenvolverem bem, o que também proporcionaria uma bela paisagem com grande potencial para plantios consorciados a chamada agro-floresta, onde a colheita compensaria a irrigação enquanto que o Bambu ainda forneceria sombreamento parcial as culturas de consórcio e material diverso para uso na propriedade, tornando-o assim também viável nas partes altas.


Conhecendo o Bambu

Os bambus pertencem à família das gramíneas e a subfamília Bambusoideae que por sua vez se divide em duas grandes tribos: bambus herbáceos e os bambus lenhosos. Sendo os herbáceos geralmente de até 2 metros de comprimento, não lignificados e facilmente quebráveis enquanto que os lenhosos chegam a 35 metros de comprimento, são lignificados e bastante resistentes até sendo utilizados para substituir o aço e triturado pode substituir as pedras do concreto formando o biocreto e ainda se triturado mais fino substituindo parte do agregado de argamassas para serem utilizadas na construção civil e em muitos casos com vantagens sobre os materiais convencionais, começando por ser um material renovável.



Partes do Bambu

Figura 1 (Figura retirada da internet ”Prof. Oscar Hidalgo Lopez”)


Quanto ao tipo de rizoma o Bambu ainda é basicamente dividido em dois grupos, os entouceirantes (Simpodiais) e os alastrantes (Monopodiais). Pouco divulgado ainda há um terceiro grupo, os semi-entouceirantes (Anfipodiais) com as características dos dois anteriores encontradas na mesma planta um misto de entouceirante e alastrante.

Essa distinção entre as espécies através do rizoma é essencial na hora de coletar o material para a produção de mudas. Felizmente essas características são facilmente reconhecidas em um bambuzal já formado, primeiramente se observa a distância entre os colmos. Nos entouceirantes, como o próprio nome já diz, os bambus vão sempre estar em touceiras bem definidas e colmos bem unidos, dificultando que se ande entre os colmos, com exceção do Guadua que tem rizomas longos com características de entouceirante, mas depois de adulto se apresenta na formação de bosque como nos alastrantes, porém esse detalhe não dificulta o reconhecimento bastando verificar o formato dos rizomas. No caso dos alastrantes, nunca teremos touceiras definidas e quando adultos formam lindos bosques que permitem que se ande por entre os colmos.


Bambus entouceirantes

Dendrocalamus asper, Dendrocalamus giganteus, Dendrocalamus latiflorus, Guadua chacoencis, Guadua angustifolia, Bambusa vulgaris, Bambusa vulgaris var. vitatta, Bambusa textilis, Bambusa multiplex...



Exemplo de Rizoma de Bambu entouceirante (Simpodial)

Figura 2 (Retirada da internet ”Prof. Oscar Hidalgo Lopez”)



Foto 1(Rizoma de Bambu entouceirante de pequeno porte, Bambusa multiplex)




Foto 2 – Dendrocalamus asper (Fazenda dos Bambus – Pardinho – SP)


Bambus Alastrantes

Phyllostachys aurea, Phyllostachys pubescens, Phyllostachys nigra(Foto3), Phyllostachys angulatus, Phyllostachys rubromarginata, Phyllostachys bambusoides madake, Pleioblastus chino elegantissimus, Pleioblastus variegatus…



Exemplo de Rizoma de Bambu Alastrante (Monopodial)


Figura 3 (Figura retirada da internet ”Prof. Oscar Hidalgo Lopez”)


Foto 3 (Rizoma de Bambu alastrante de pequeno porte)


Foto 4 Bambu Alastrante – Phylostachys nigra (Fazenda dos Bambus – Pardinho – SP)


Bambus Semi-Entouceirantes

Aqui uma imagem apenas exemplar da formação dos rizomas dos Bambus semi-entouceirantes.

Não tenho para citar nenhuma espécie desse tipo.


Exemplo de Rizoma de Bambu Semi-Entouceirante (Anfipodial)

Figura 4 (Figura retirada da internet ”Oscar Hidalgo Lopez”)



Até aqui tivemos conhecimentos básicos sobre o Bambu o que nos possibilitará um melhor entendimento inicial para podermos continuar estudando esse material sagrado para muitos povos, para os outros módulos é muito importante o entendimento do estudado aqui.


Obs.:Se entendeu com clareza o que foi explanado até aqui pode ir para o módulo de produção de mudas ou o módulo de implantação da lavoura, quanto mais claro estiver o que aprendeu aqui, mais fácil será entender os próximos módulos...


Eliseu Pinheiro Lopes Sítio Terrinha – Araçuaí – Vale do Jequitinhonha - MG elyzeus.epl@gmail.com


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